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terça-feira, 14 de junho de 2011

O perigo da sedução na "Rede"


Precisamos de os travar. Eis o que podemos fazer.



«Vá lá, mãe, por favor? Todos estão lá!»

Marianne* ouviu este estribilho durante meses. Não havia nada que a sua filha mais nova, Katrina*, quisesse mais na Internet do que juntar-se à rede Habbo.com, o maior hotel virtual e rede social do Mundo para adolescentes. Iria mudar a sua vida, dizia-lhe ela, e poderia conhecer pessoas de todo o país.

«Tu só tens 11 anos!», era a resposta do costume.

«Eu vou ser responsável! Prometo!»

Finalmente, Katrina convenceu a mãe. Juntou-se ao Habbo e aos seus 500 000 membros na Holanda desde que seguisse algumas regras: não daria nunca os seus números de telefone, endereço de e-mail e, acima de tudo, nunca daria a localização da família, numa pequena cidade no Sul do país.

O que poderia correr mal?

O primeiro sinal de problemas surgiu num sábado de Fevereiro de 2010, quando Katrina foi a uma festa de anos sem o telemóvel que a mãe lhe tinha comprado na semana anterior. Marianne estava a mostrá-lo a uma amiga quando chegou uma mensagem de texto. «Está lá dentro de 15 minutos», podia ler-se. «Gosto de ti.» Marianne ficou intrigada. «Está lá?», pensou. «Mas a Katrina não está na festa de anos?»

Preocupada, procurou o histórico de mensagens. Existiam cerca de 70 mensagens de texto, todas de alguém chamado Eric. Muitas delas tinham um teor inadequado, eram até mesmo de cariz sexual. Oh, meu Deus! Procurou o número de Eric no telefone, só que não existia nenhum Eric do outro lado. Ao invés, ela chegou à caixa de correio de voz de um tal «Andreas», que soava não como um rapaz ou um adolescente. Era uma voz de homem. Ligou para o marido no trabalho.

«Creio que a nossa mais nova está a ser contactada por um pedófilo», resumiu.

«Vou já para casa», respondeu-lhe o marido. «Vê o portátil dela.»

Era o pior pesadelo de qualquer pai: uma torrente de mensagens de «Andreas» para Katrina, incluindo uma que mencionava o facto de terem «feito amor» na semana anterior e o que ele iria fazer com ela da próxima vez que estivessem juntos. Era da filha dela que estavam a falar, da sua bebé que ainda nem sequer usava soutien! «Respira!», dizia intimamente. Tinha vontade de vomitar, mesmo tentando controlar-se. O que tinha feito de errado? Seria porque tanto ela como o marido trabalhavam fora a tempo inteiro? Katrina sabia que não podia nunca falar com estranhos. Os pais tinham-na ensinado e aos seus três irmãos mais velhos.

Quando chegou a casa, Katrina tentou negar tudo. Eric era apenas uma pessoa que ela tinha conhecido no Habbo, explicou, e Andreas era só um amigo mais velho de Eric.

«E estes e-mails? », perguntou Marianne. «E estes textos? Nós vamos à Polícia!»

Devagarinho, a história começou a surgir. No início, Katrina pensou que «Eric» tinha 12 anos, depois 14 e a seguir 18. Ele alugou um quarto de hotel virtual no site e pagou-o com o seu cartão de crédito. Eles «foram para lá juntos». Ela chamava-lhe «namorado» e ele chamava-lhe «princesa.» Quando ele sugeriu que saíssem do seu ninho de amor virtual para se encontrarem no mundo real, pareceu-lhe um passo natural. Não importava que ele tivesse 28 anos. Ele foi buscá-la à escola no seu BMW e levou-a a comer lagosta antes de irem para um quarto de hotel bem real, com uma cama a sério e um chuveiro a sério. Ele fê-la sentir-se crescida e bonita – e ninguém na família desconfiou de nada porque ela estava sempre em casa à hora do jantar.

«Eu amo-o», disse ela.

Marianne levou o computador de Katrina à esquadra mais próxima, mas disseram-lhe para voltar na segunda-feira. Ela nem queria acreditar. A sua bebé estava metida num sarilho e a Polícia tinha a lata de lhe dizer que não tinha efectivos suficientes para lidar com a queixa? E não tinha saído, no mês anterior, uma lei que criminalizava o aliciamento online – a cuidadosa busca e preparação de menores para os seduzir e abusar deles?

«O que fazemos?», perguntou, desesperada, ao marido.

«Vamos a outra esquadra», respondeu-lhe ele. «Não esperamos.»

Infelizmente, a história de Katrina não é a única. Por toda a Europa, existem narrativas de miúdos que foram iludidos com falsas garantias de segurança quando se aventuraram online. Miúdos abordados em redes sociais por mensagens instantâneas ou em jogos online. Miúdos que foram seduzidos por um simples cumprimento enviado pelo ciberespaço e que nunca pensaram que alguma coisa de mal pudesse acontecer quando passassem do virtual para o real e conhecessem, de facto, aquele novo amigo.

Miúdos tal como o solitário rapazinho húngaro de 12 anos que pensava ter encontrado uma rapariga simpática num chat e foi a um parque para a conhecer. Acabou violado por um homem que afirmava ser seu tio. Ou a rapariga finlandesa de 14 anos que foi abusada sexualmente por um homem de 63 anos que se fazia passar na Internet por um rapaz de 18. Indivíduos como o russo conhecido por «Tio Alexey» Alexeev, que procurava jovens na Internet a quem convidava para irem a sua casa para os assediar, alguns deles mais do que uma vez. Quando foi preso, a Polícia descobriu no seu computador os endereços de correio electrónico de mais de 280 crianças.

Trata-se de um crime que passou dos parques e das escolas para um campo muito mais vasto: a Internet, que tem cerca de 14,6 milhões de utilizadores com menos de 17 anos ligados a qualquer hora. Enquanto os seus dedos voam sobre os teclados dos computadores e dos smart phones, os pais, a Polícia e os governos tentam acompanhá-los. O problema é que não existem estatísticas para trabalhar e, com elas, determinar a melhor forma de lidar e acabar com a questão. Julia Davidson, professora de Criminologia na Universidade londrina de Kingston, que é co-directora do primeiro estudo da Comissão Europeia sobre o aliciamento de menores online, nota que, em parte, isto deve-se ao facto de existirem muito poucos predadores sexuais condenados pelos seus crimes.

«Neste momento, no Reino Unido, por exemplo, existem apenas cerca de 70 homens presos por aliciamento, e 50 deles concordaram em ser entrevistados neste estudo», diz ela. «Agentes policiais que se fazem passar por crianças em chat rooms dizem receber centenas de mensagens por semana de homens adultos, o que nos leva a concluir que não conhecemos a verdadeira dimensão deste problema.»

Para Yvonne van Hertum, os números não importam. Activista pelos direitos das crianças em Roterdão, recebe todas as semanas uma série de telefonemas de pais – incluindo os pais de Katrina – que precisam de aconselhamento após descobrirem que os seus filhos foram alvo de predadores na rede. «A Europa é um festim para pedófilos na Internet», resume.

Mas como é que se vigia um mundo em que, segundo um estudo feito o ano passado pela União Europeia, 49% dos inquiridos entre os 9 e os 16 anos utilizam a Internet no quarto, onde é difícil aos pais monitorizarem? Um mundo em que 59% têm perfil nas redes sociais e mais de um quarto deles não restringe a informação que divulga nesse mesmo perfil? Um mundo onde quase um terço dos inquiridos admite ter comunicado com pessoas que não conhece e 9% foram encontrar-se com desconhecidos na «vida real»?

Posto isto, a Polícia tem feito progressos no que toca a alguns crimes cometidos contra crianças na Internet, nomeadamente a produção e divulgação de pornografia. A base de dados da Interpol, que pode ser consultada directamente por investigadores credenciados em 25 países de todo o Mundo, permitiu o salvamento de mais de 2100 crianças um pouco por todo o planeta. E em Março de 2011 a Europol e o Centro de Protecção Online Contra o Abuso de Crianças (CEOP, na sigla em inglês) do Reino Unido eliminaram a maior rede de pedofilia na Internet descoberta até agora, uma rede em que os seus milhares de membros utilizavam sistemas secretos para partilhar imagens de menores abusados.

Mas no que diz respeito ao aliciamento de menores, cada país europeu lida com a questão sozinho. Apenas alguns, entre eles o Reino Unido, a Noruega e a Suécia, possuem legislação que condena especificamente quem alicia na Internet.

A maioria dos governos tem poucos especialistas dedicados à monitorização da Internet e dos chat rooms , mas a verdade é que um crime pode ser difícil de detectar. Os investigadores devem perceber se um comentário que parece inócuo contém uma ameaça. É por isso que, na maior parte dos países, os aliciadores acabam por só ser condenados após o abuso. É também por isso que as acusações variam tanto, desde o delito «leve» de corrupção de menor até à violação. E as sentenças variam também, desde multas e 10 meses de prisão para aquele homem de 63 anos na Finlândia aos 5 anos de prisão do «Tio Alexey», preso em 2008 e que pode sair em liberdade daqui a pouco tempo por bom comportamento.

Demasiadas vezes, a burocracia e a falta de pessoal prejudicam as investigações. Consideremos o caso daquele rapaz de 13 anos, Corentin Laborie, no Sul de França: em 2008, um predador que se fazia passar por uma adolescente convenceu-o a despir-se e a masturbar-se em frente à câmara do computador, ligado à Internet. Quando a mãe, Gaëlle, descobriu o que se passou, foi direita à Polícia local. Mas os investigadores cedo descobriram que o homem vivia numa província diferente e transferiram o caso para a Gendarmerie, ou seja, para as autoridades nacionais. O caso ficou parado durante três anos. Não foi feita nenhuma detenção, e Gaëlle ficou furiosa quando o promotor de justiça lhe disse que tinha demasiados casos em mãos e que, como tal, não se podia concentrar no do filho.

Em 2009, uma tentativa do Parlamento Europeu de criar legislação aplicável a todo o espaço europeu não foi avante em parte devido ao impasse quanto ao conceito de «idade de consentimento», que varia desde os 13 anos em Espanha aos 17 na Irlanda.

Hoje, o Parlamento tenta uma segunda alternativa: a directiva proposta é baseada num tratado ratificado no ano passado pelo Conselho da Europa, uma organização de defesa dos direitos humanos com 47 países-membros e que abrange todos os tipos de abuso infantil, desde o turismo sexual ao «aliciamento», um termo mais lato porque abrange também actividades fora da web. A legislação define também a idade de consentimento sexual, abaixo da qual é proibido praticar actividades sexuais com menores de acordo com a lei de cada país, e estabelece uma pena máxima de cinco anos para adultos que o façam. Da mesma forma, a lei determina que os adultos que tentem, através de informação ou de tecnologias de comunicação, encontrar menores com vista a abusar deles são sujeitos a uma pena máxima de um ano de prisão. E obriga os Estados-membros a bloquearem o acesso a sites que contenham pornografia infantil.

A deputada europeia italiana «campeã» dos direitos das crianças, Roberta Angelilli, admite que ainda existem pontos que devem ser mais bem trabalhados, especialmente no que respeita ao bloquear do acesso aos sites na Internet. Mas insiste que os desentendimentos que possam existir não podem servir de desculpa para não se avançar, uma vez que o abuso marca para sempre uma criança, e, na maior parte dos casos, esses abusos acontecem além-fronteiras. «Combater o aliciamento é um dos principais objectivos desta directiva», explica.

Theo Noten já viu de tudo. Membro do Conselho Europeu da ECPAT, uma organização internacional sem fins lucrativos que se dedica à protecção de menores, já viu meninas como Katrina, crianças felizes que confiam nos outros e estão desejosas de fazer amigos online, caírem em armadilhas por mero acaso. Mas também já viu miúdos vulneráveis que vêm de casas onde foram abusados e podem estar demasiado envergonhados para contar a alguém o que lhes fizeram.

«Não existe uma solução simples nem uma lei que possa fazer que esta realidade desapareça», diz Theo Noten. «Precisamos de abordar o problema de uma série de ângulos diferentes. Precisamos de olhar para a prevenção.»

O primeiro passo é perceber como funciona a mente de um abusador. Manipuladores e meticulosos, são capazes de se transformar naquilo que sentem que a vítima precisa – um amigo e confidente, alguém simpático que as ouve ou, como num caso no Reino Unido, um pai benévolo.

Nessa situação, um homem casado, de 36 anos, com filhos, seduziu uma menina de 13 anos quando rapidamente percebeu que ela precisava da figura de um pai. Após um tempo de «namoro» na Internet, encontraram-se seis vezes durante seis meses, tempo em que ele a cobriu de prendas, a levou para um hotel local para ter sexo com ela e a fez pensar que o amor era aquilo. «Ela tinha passado um mau bocado na infância», explica Julia Davidson, a criminologista britânica, que é uma das líderes do estudo europeu sobre aliciamento online. «Com certeza, ele sabia o que estava a fazer. Os aliciadores tentam perceber o que mexe com as suas vítimas para conseguirem alcançar a sua própria satisfação sexual.» Esse homem está a cumprir pena.

Julia Davidson esclarece que a pesquisa até agora mostra que os aliciadores têm geralmente um QI elevado, de 110 ou mais, pouca educação formal e uma elevada literacia tecnológica. Muitos tentam contactar 200 a 300 nomes ao mesmo tempo nas redes sociais, na tentativa de satisfazerem a sua necessidade: rejeitados pela maioria dos seus alvos, encontram vítimas maioritariamente entre raparigas acabadas de entrar na adolescência, muitas delas vindas de famílias disfuncionais.

«A questão é: “Como é que nós criamos programas de alerta para esse pequeno grupo de crianças vulneráveis?”», questiona Julia Davidson.

Para ter eficácia, em parte a resposta reside numa melhor divulgação, com programas educacionais cuidadosamente elaborados e campanhas públicas. Mas essas campanhas não conseguem fazer tudo. O que significa que têm que ser os próprios sites – onde esses miúdos vulneráveis são expostos em primeira instância – a darem um passo em frente e tornarem-se proactivos e responsáveis. Actualmente, tendem a ser meramente reactivos, respondendo quando existem queixas e, segundo alguns especialistas, monitorizando com pouco entusiasmo e eficácia o tráfico dos seus chat rooms.

«Padecem da síndroma de avestruz, que enfia a cabeça na areia», acusa Rebecca Newton, especialista em segurança infantil na Internet e que já trabalhou no site Habbo como técnica de segurança. «Já vi toda a espécie de comportamento sociopata na Internet, abrangendo desde crianças a adultos, mas os proprietários do site não querem acreditar que isso aconteça nas suas páginas.» Rebecca Newton sublinha que pura e simplesmente não existe pessoal suficiente para assegurar a segurança nos sites, que têm milhões de utilizadores. «É o mesmo que ter um guarda responsável pela segurança de um país inteiro ou dois», resume.

Também existe um limite ao que o olho humano consegue captar. Podem procurar-se à vontade por padrões e palavras-chave, continua esta especialista, mas os predadores são espertos. «Eles sabem como evitar essas “bandeiras vermelhas”. Isso significa que as empresas devem utilizar software que analise os logs das conversas de forma mais eficiente. Porque, afinal, a ideia não é tornar a Internet o mais segura possível?»

No final de contas, por muito esforço que as autoridades e as empresas façam, cabe aos pais e às crianças adoptarem condutas mais responsáveis.

«Como pais, estamos na linha da frente», resume Theo Noten, da ECPAT. «Temos que ter tempo para falar com os nossos filhos sobre todos estes assuntos. Não se trata apenas do homem feio escondido atrás da moita na vida real. Trata-se de perigos reais na Internet, perigos que eles não estão à espera de encontrar. Temos que ensinar as nossas crianças a dizerem “Não!”.»

Os pais de Katrina aprenderam a lição da forma mais dura. Mais de um ano após aquela sinistra mensagem de texto, a família ainda tenta recompor-se. Marianne ficou furiosa quando Andreas, em tribunal, declarou que apenas procurava uma relação e que pensava que a sua filha fosse mais velha. Considera que ele devia ter sido condenado a uma pena mais pesada que os dois anos de prisão e seis meses de liberdade condicional por abuso de menor e desrespeito à lei contra o aliciamento em vigor no país.

Actualmente com 12 anos, Katrina está a ser acompanhada psicologicamente, ainda fortemente ligada ao seu abusador e zangada com os pais por terem-na forçado a acabar com a relação e ido à Polícia. É como se tivesse duas pessoas a morar dentro da sua cabeça, uma dizendo-lhe que não desista do amor que sente por Andreas e a outra ciente de que o que ele fez está errado. Durante a noite, não consegue dormir e não raras vezes tem pesadelos.

Ao mesmo tempo, os seus pais devem lidar com a culpa e com a sensação de terem falhado. Antes, eram apenas uma família normal: mãe e pai que trabalhavam a tempo inteiro, um pai que tinha na garagem um passatempo, quatro filhos e três cães malucos. Jantavam juntos na maior parte dos dias e, fosse como fosse, conseguiam fazer que tudo corresse bem.

Agora, vêem-se ansiosos, preocupados com o desconhecido. Preocupam-se de todas as vezes que um dos filhos sai de casa e preocupam-se com a Internet. Sabem que devem encontrar um equilíbrio entre a responsabilidade parental e a superprotecção, mas é difícil. Tiraram o computador a Katrina.

«Vamos ficar bem», diz Marianne. «Mas se há um conselho que podemos dar, é este: as pessoas pensam: “Isto não pode acontecer na minha família” – e, de repente, só nos resta apanhar os cacos.»




*Para proteger a identidade das vítimas, os nomes foram alterados.

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